Resenha do livro O rio, Canabrava e os homens, de Lourdes Nicácio e Silva
Fonte: Silva, 2021.
Entre os
segredos da terra e os mistérios que envolvem cada morador, Lourdes Nicácio e
Silva constrói, em O rio, Canabrava e os homens, uma atmosfera
simultaneamente mística e realista. Por meio de memórias, lendas, paisagens e
histórias de vida, a autora descreve de maneira magistral a cartografia afetiva
da fazenda Canabrava, espaço marcado pela relação profunda entre os habitantes
e o Rio São Francisco, o tradicional “Velho Chico”.
Prefaciada
pelo poeta Marcus Accioly e acompanhada de depoimentos do escritor e editor
Edvaldo Arlégo e do poeta e escritor Cyl Gallindo, a obra apresenta um retrato
sensível de uma pequena comunidade que permanece ligada às próprias origens,
mesmo diante das transformações provocadas pela construção de uma barragem para
geração de energia elétrica, responsável pela inundação da fazenda Canabrava. Nesse
contexto, a narrativa transforma o rio não apenas em cenário, mas em elemento
central da identidade coletiva dos personagens e da memória regional.
A linguagem
adotada por Lourdes Nicácio é envolvente e imagética, permitindo que o leitor
mergulhe nas narrativas e nos costumes locais. Os personagens se integram
organicamente à trama, revelando aspectos pouco conhecidos da cultura popular
do Velho Chico, especialmente suas lendas, crenças e tradições orais. Assim, o
livro ultrapassa a simples narrativa ficcional e assume também um importante
caráter de preservação cultural e histórica.
Ao longo da
obra, a narrativa conduz o leitor por um percurso que começa na apresentação da
fazenda e do rio, passa pelas experiências ligadas ao turismo na região e
adentra os mistérios da Canabrava e dos chamados “homens do rio”. Nesse
cenário, destacam-se personagens como Quinquinhas, Seu Bento, Major Simão,
Tatá, Tião, Dona Arsena, Dr. Antônio, Mãe Benta, Nina, André, Pedrinho,
Dominga, Zezinho e Ninico, todos marcados pela forte ligação afetiva com a
terra e pelos encantos que dela emergem. É notável o entrosamento da autora com
a atmosfera do Rio São Francisco, retratado como espaço de memória, resistência
e espiritualidade. Parafraseando os dizeres populares daquele povo: “A carranca
afasta os espíritos do mal”. A narrativa, portanto, reafirma a força simbólica
das tradições ribeirinhas e da cultura popular nordestina.
Dessa forma,
a obra de Lourdes Nicácio não apenas homenageia os povos do Velho Chico, mas
também preserva a memória de um lugar submerso fisicamente, porém vivo nas
lembranças e narrativas de seus habitantes. Por esses motivos, recomendo a
leitura da obra para leitores de todas as idades, da infância à vida adulta,
pois Canabrava pode ser experienciada e sentida por todos.
Por Roberio Gomes.
Referência
SILVA, Lourdes Nicácio e. O rio, Canabrava e os homens. 10. ed. Novo Horizonte, 2021. 74 p.
Roberio
Gomes é professor formado em Letras – Português pela Universidade Católica de
Pernambuco, mestrando em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal Rural
de Pernambuco, escritor e autor de dois livros publicados. Atua também na
pesquisa em literatura, poesia, memória e cidade, com ênfase nas manifestações
culturais e poéticas da cidade do Recife.
Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário